O HOMEM DUPLO
Um filme que é uma adaptação de um livro de Philip K. Dick, com um elenco recheado de grandes nomes, e produzido por Steven Soderbergh, George Clooney e Tommy Pallotta, deve ser bom, certo? Certo. E “O homem duplo” é muito bom mesmo. Escrito e dirigido por Richard Linklater (autor de “Waking Life”), o filme usa a mesma técnica de animação de seu trabalho anterior, que é a técnica de rotoscopia digital (as cenas são rodadas com atores e depois se embute animações gráficas nelas).
O que torna o filme tão bom são as mudanças constantes que ele sofre, num vai e vem intrigante. Em certos momentos o filme provoca reflexões, e logo em seguida utiliza um humor quase negro em cima dessas reflexões, pra logo em seguida voltar a provocar novas reflexões, e assim por diante. Alguns momentos são convidativos a entrarmos na paranóia de alguns personagens, e quando percebemos estamos viajando paralelamente à viagem do filme.
Venho de uma experiência muito agradável com um livro de Philip K. Dick, que é “O Homem do Castelo Alto”, e por isso estava mais interessado ainda em assistir este filme. A história de “O Homem Duplo” é baseada nas próprias experiências com drogas do autor mencionado, e, talvez por isso, o filme não seja da mesma profundidade e da mesma inteligência de outras obras suas, mas nem por isso deixa de ser genial. As críticas contra a natureza passiva do ser humano, contra o mundo da dependência química, contra a mania do Estado de querer vigiar tudo e todos, contra a corrupção inerente a todo sistema, tudo isto é posto de forma soberba no filme, por justamente variar entre a seriedade, a paranóia, e as sacadas de humor.
O trabalho de animação é fantástico, dando um charme especial à película. As atuações também são muito boas. Keanu Reeves está muito bem, Woody Harrelson está divertido, Winona Ryder está uma ternura, e Robert Downey Jr. está excelente, com tiques apropriados para um personagem alucinado e um tanto quanto pirado.
Aproveito o espaço pra dizer que Richard Linklater é um cineasta que merece minha admiração, meu sincero agradecimento e profundo respeito. Ele esteve à frente de dois filmes que amo, que considero “filmes para a vida”, que são “Antes do amanhecer” e “Antes do Pôr-do-Sol”. Ainda fez o divertido “Escola de Rock”. E agora essa fantástica animação. Um cineasta que não me incomodo nem um pouco em dizer que “pago um pau” pra ele.
Nota: 8,0
Escrito por Bruno às 13h02
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PERFUME - A HISTÓRIA DE UM ASSASSINO
Dirigido por Tom Tykwer, diretor do cult “Corra, Lola, corra” - aliás, filme que não me agrada tanto - “Perfume” é um filme diferente, um tanto quanto curioso, forte, poético e sensível ao mesmo tempo. Trata-se de uma adaptação para os cinemas do livro que leva o mesmo nome deste filme, adaptação esta que inclusive interessou gente grande como Martin Scorsese, Tim Burton e Milos Formam.
Logo no começo do filme, assistimos uma cena chocante onde uma multidão aguarda o pronunciamento do julgamento de Jean-Baptiste Grenouille, o “assassino dos perfumes”, e vibra com a crueldade da pena imposta ao condenado. Em seguida, voltamos no tempo para ver as condições em que o protagonista do filme nasceu, sua infância, e etc. Inclusive, nesse comecinho, tem uma cena interessantíssima, quando o bebê pega o dedo de um moleque e o cheira. E o que se sucede depois dessa cena, choca. Aliás, a rejeição que o protagonista sofre no começo do filme, não sei muito bem explicar o porquê, me cativou bastante.
Então, depois que o Grenouille “cresce”, passamos a assistir a obsessão dele por todo tipo de cheiro, e sua loucura por um cheiro em particular: o de uma bela jovem ruiva, que ele mata acidentalmente. Ao ver o corpo morto da jovem perdendo gradativamente seu odor, ele encontra um objetivo na vida, que é captar a essência do cheiro de qualquer coisa. E é a partir daí que o filme se desenvolve.
Apesar de ser longo (147 minutos), a impressão é de que o filme tem menos de duas horas, talvez porque a película tem várias fases. Outro fator positivo do filme é sua trilha sonora, que só contribui para aumentar ainda mais sua beleza. E a recriação das cidades, a vestimenta das pessoas, tudo é muito bem feito, e faz com que entremos mais ainda no filme. Ah sim, não posso deixar de mencionar a narração com a voz marcante de John Hurt, o qual considero perfeito para narrar certos tipos de filmes.
Quanto às atuações, temos atores de luxo fazendo papéis coadjuvantes, como Dustin Hoffman, na pele do divertido italiano Baldini, como Alan Rickman, dentre outros. Agora, me surpreendi com o ator Ben Whishaw, interpretendo o protagonista. Não conheço os trabalhos anteriores dele, mas na pele do assassino deste filme, ele consegue deixar tudo mais verossímil e sincero, ainda que o que vejamos seja fantasioso e exagerado.
Bom, pra quem ainda não viu o filme, por favor não leia este parágrafo! Muito se comenta sobre o final do filme. Muita gente estava gostando do filme e detestou seu final. Acho que trata-se de um final que tem diversos modos de entendê-lo. A “corrente” mais aceita é a de que o final é recheado de simbolismo, surrealismo e fantasia. Faz sentido, mas eu entendi o final de maneira um pouquinho diferente. Acredito que não foi à toa que o filme iniciou mostrando o anuncio da sentença de Grenouille. Talvez seja uma viagem minha, mas eu interpretei da seguinte forma: Grenouille possivelmente sofria de psicose, logo alguns aspectos da sua realidade eram negados por ele, e substituídos por concepções particulares. Então, pode ser que na verdade ele foi torturado até a morte mesmo, mas a cena final que vemos é tão somente o que se passou na cabeça dele, o que ele viu, a maneira como ele representou aquela realidade. E depois, quando ele é assediado e atacado pelo povão por causa do seu cheiro, e “devorado”, seria uma representação simbólica da sua morte. Talvez a opção tenha sido mostrar como ele viu sua morte, ou mostrar como ele gostaria de dar adeus a este mundo, ao invés de mostrar a pena cruel que ele sofreu. Enfim, já viajei demais.
“Perfume - A história de um assassino” não é um filme fácil de ser assistido, mas que provoca diversos tipos de reflexões. Eu não tive a oportunidade de ler o livro, mas o filme, como produto cinematográfico, é fantástico. Pra quem não o conferiu nos cinemas, vale a pena correr pra locadora mais próxima e assistir esta bela obra.
Nota: 8,0
Escrito por Bruno às 01h20
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HOMEM-ARANHA 3
Pode-se afirmar categoricamente que a melhor adaptação dos quadrinhos para as telonas, é a franquia do Homem-Aranha. Tanto em qualidade cinematográfica, quanto em retorno financeiro. Talvez seja porque este é o herói mais humano dos quadrinhos, e isto cativa o público. Peter Parker é provavelmente o personagem que mais lembra um cidadão comum, uma pessoa qualquer que podemos encontrar nas ruas. Ou, na verdade, talvez seja por causa do talento inquestionável de Sam Raimi em transpor histórias de quadrinhos para o cinema.
Muito se dizia, e se diz ainda, sobre o fato de em “Homem-Aranha 3” ter muitos vilões e que isto acabava por prejudicar o filme. É verdade que o fato de ter muita gente importante no filme (não só os vilões) implica falta de tempo hábil para aprofundar melhor esses personagens, o que pode enfraquecer um filme. Porém, graças à habilidade de Sam Raimi, os personagens novos são introduzidos e desenvolvidos satisfatoriamente bem. E, como sempre, Sam Raimi nos revela o motivo de cada personagem ser vilão, ou seja, o vilão tem uma suposta “boa causa” pra ser vilão. E isso é bem trabalhado em todos os três vilões.
O inicialmente questionado Homem-Areia tem uma trama brilhante, que dá ótimas oportunidades para o desenvolvimento do personagem. E o motivo pelo qual ele se torna vilão passa a ser aceitável, e quase nobre. Além do que, temos a espetacular cena do homem-areia se originando, que é de encher os olhos. Já sobre o Venom, logo na chegada do simbionte alienígena na Terra, já se começa a desenvolver sua história. E paralelamente a isso, vemos o desenvolvimento do personagem de Topher Grace (muito bem no papel), o repórter Eddie, e o link do porquê ele se tornar rival do homem-aranha, se transformando no Venom. E ainda temos o retorno do Duende Verde como vilão, agora encarnado por Harry Osborn. O motivo pelo qual ele se torna vilão todos nós já sabemos, mas o destaque é para o desenvolvimento que se dá para o personagem durante a película. Na reta final do filme, o que acontece com ele é a escolha mais acertada do roteiro, e consegue cativar bem. E, claro, tenho que ressaltar a cena da primeira luta entre o Duende Verde e o Homem Aranha, que sozinha já vale o ingresso.
Ainda temos a introdução da personagem Gwen (que nos quadrinhos é a primeira namorada que Peter Parker teve), interpretada competentemente por Bryce Dallas Howard. Aliás, foi uma ótima escolha a referida atriz para este papel. Agora com o cabelo loiro, e mais bela ainda, Bryce Dallas, mesmo aparecendo pouco, consegue se destacar quando aparece e chama a atenção. E temos dessa vez uma menos “trabalhada” tia May, que aparece pouco e acaba sendo menos explorada e desenvolvida. Kirsten Dunst continua ótima no papel de Mary Jane, e Tobey Maguire definitivamente parece ter nascido para este papel. Parece impossível dissociar o ator do personagem.
E também vale mencionar o quão bem trabalhado é o personagem Peter Parker. Enquanto no primeiro filme há o surgimento do herói, no dois há o dilema “ser herói ou não ser”, no três o enfoque é, após já ter aceitado a vida de herói, em como ser tal herói, e em como conviver com o clima de celebridade que gira em torno dele. Ah, e também é interessante pro desenvolvimento do personagem, a mudança de personalidade que Peter Parker sofre por causa do simbionte alienígena, e o aprendizado em razão do que ele vivencia sob influência dessa mudança de personalidade.
Enfim, com belíssimas cenas de ação, com uma trama bem amarrada, com uma relação harmônica entre o surgimento dos novos vilões e o desenvolvimento dos personagens, e com a introdução de outros novos personagens, que prometem ser mais desenvolvidos numa próxima continuação, “Homem-Aranha 3” vem pra confirmar que é a franquia mais bem adaptada dos quadrinhos para o cinema. Como um todo, o filme não é espetacular, não chega a ser uma obra-prima, mas mesmo assim consegue empolgar bastante. Ainda que seja um pouquinho pior que o “Homem-Aranha 2”, e pior que “Homem-Aranha”, o filme ainda mantém o alto nível. E pra melhorar, vem arrecadando uma bilheteria monstruosa. Tem tudo pra ser a bilheteria do ano. Mais que merecido.
Nota: 7,5
Escrito por Bruno às 00h28
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A COLHEITA DO MAL
Primeiramente gostaria de falar da minha frustração em estar escrevendo com uma freqüência tão baixa. Ando em uma fase muito corrida na minha vida, e em conseqüência ando tendo muito pouco tempo para fazer uma das grandes paixões da minha vida: ver filmes. E em conseqüência, também estou com pouco tempo para escrever, e isso me entristece bastante, pois adoro escrever neste meu pequeno espaço virtual. E peço desculpas aos leitores deste despretensioso blog, pois sei que não é tão legal freqüentar um blog constantemente desatualizado.
Bom, “A colheita do mal” é um filme que está sendo bombardeado pela crítica. Não de forma unânime, mas a maioria da crítica definitivamente não ficou feliz com o resultado final deste filme. Mas isso quer dizer que o filme é ruim? Sustento que não.
Este é um típico filme que supostamente não agrada a crítica de um modo geral. Não é, em sentido estrito, um filme sério (não que os filmes tenham que ser, necessariamente, sérios pra agradar a crítica, mas que isso ajuda, ajuda!), tem efeitos especiais, no mínimo, risíveis (para os padrões atuais), e o roteiro usa elementos sobrenaturais para causar tensão (são raros filmes assim que agradam os críticos). Agora, no meu entender, o objetivo principal do filme é somente deixar o espectador tenso e apreensivo, ao tempo em que a história vai se desenvolvendo. Causar o bom e velho suspense na platéia. E nisso, ele é muito bem sucedido.
Um dos problemas do filme, que não chega a interferir no seu objetivo principal (causar tensão) é a mal explicação ora dada em alguns momentos, e também as explicações demasiadamente técnicas para um público cientificamente leigo (como eu), e ainda as várias referências bíblicas presentes no filme. Achei interessantíssima a idéia de basear o enredo todo do filme nas “dez pragas” contadas na bíblia. Porém, quem não conhece essas pragas, ou não tem familiaridade com a bíblia, pode ter problemas para conseguir captar toda a essência da trama. E digo mais, para aqueles que não acreditam em Deus e demônio, pode até ser difícil de aceitar a proposta do filme.
Sobre as atuações, único destaque vai para Hilary Swank, que mesmo não estando no auge de sua forma, se entrega por completo à sua personagem. Sua atuação é madura e adequada. Aliás, esta atriz vem definitivamente sedimentando sua talentosa carreira. Mesmo quando participa de alguns filmes duvidosos ou questionáveis, ninguém (que seja uma pessoa séria) critica suas atuações. E volta e meia, ela tem alguma atuação primorosa como a de “Meninos não choram” e “Menina de ouro”.
Então, sou da teoria que se um filme cumpre bem o seu objetivo, então ele é, no mínimo, um bom filme. E “A colheita do mal” faz o que almeja. A despeito dos problemas no roteiro e na direção, o filme causa tensão constante no espectador (e que fique claro que causar tensão é diferente de apenas dar vários sustos), ao mesmo tempo em que desenvolve satisfatoriamente sua história. Se a proposta for engolida, fica fácil aceitar o filme e gostar dele. Agora, para aqueles que odeiam filmes que relacionam a trama com religião, ou para aqueles que não gostam de filmes de suspense de um modo geral, definitivamente este não é o filme mais indicado.
Nota: 7,0
Escrito por Bruno às 00h38
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