O SEGREDO DE BERLIM
Mesmo não sendo tão fã do gênero noir, até que vi com bons olhos esse filme recente do Soderbergh, que saiu direto em dvd aqui no Brasil. Eu diria, aliás, que o filme é na verdade uma homenagem ao gênero noir e, principalmente, a alguns filmes dos anos 40. Desde a filmagem, passando pela trilha sonora, e até mesmo as atuações são bem características de um passado que traz saudade a muitos cinéfilos.
Uma falha, que talvez não seja falha, é que o filme tem cena de sexo e os personagens falam alguns palavrões, coisas que nunca se veria em um filme da década de 40. Digo falha porque se a intenção é filmar um filme “alá” anos 40, com toda uma filmagem e um enredo nesse sentido, seria incoerente não observar certas regras de filmes daquela época. Agora, digo que talvez não seja falha, porque pode ser que o Soderbergh tenha tentado inovar e mudar a forma desses filmes intencionalmente, acrescentando elementos estranhos ao gênero.
Mas fato é: o filme tem um bom roteiro (porém não chega a ser ótimo), um elenco de peso, e um diretor competente. Isso ao menos garante que a película tenha uma certa qualidade. O que atrapalha um pouco, é que fica evidente que em certos momentos o filme é quase um exercício de direção. Se fosse mais objetivo, ou mesmo um pouco mais preocupado em cativar, certamente o resultado seria melhor.
Ainda temos três dos atuais grandes nomes do cinema no elenco. George Clooney está bem, mas muito longe de suas capacidades. Talvez por conta do seu personagem, que não lhe dá muitas margens de atuação, ou talvez seja culpa dele, ao tentar excessivamente dar um cabimento anos 40 a seu personagem. Cate Blanchett mostra muita competência na pele de uma personagem deveras fria, que tem lá suas razões para tal. Seu talento aqui é indiscutível, mas achei sua personagem até fria demais. Às vezes ela se revela tão distante que chega a ser difícil de compreender porque o personagem de Clooney se importa tanto com ela. Por fim temos um excelente Tobey Maguire. Seu personagem, o qual está mais para um personagem moderno do que para um antigo, é o meu preferido, e gostaria que ele tivesse aparecido bem mais no filme. Muito bom ver que ele também pode interpretar bem um personagem assim, meio bad-boy, meio sem noção, meio detestável, e ainda assim cativante.
“O Segredo de Berlim” é um bom filme, que tenta usar e abusar da atmosfera dos filmes dos anos 40, mas que introduz também elementos estranhos ao gênero. Eu o vi sendo considerado por aí como um “filme noir moderno”. É por aí mesmo, mas creio que, acima de tudo, ele é uma celebração cinematográfica, através de um exercício de direção. A cena final do filme, clara homenagem a “Casablanca”, que o diga.
Nota: 6,5
Escrito por Bruno às 14h34
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O ULTIMATO BOURNE
A Identidade Bourne. A Supremacia Bourne. O Ultimato Bourne. E assim se encerra a que, pra mim, é a melhor franquia de filmes de ação de todos os tempos. Se por um momento eu pensei que um novo filme poderia desvalorizar a excepcional continuação do também ótimo A Identidade Bourne, logo nos primeiros minutos esse pensamento foi descartado quando o filme começou na grande telona.
Desde o começo o filme é muito, realmente muito bom. Os roteiristas deste filme, Tony Gilroy, Scott Z. Burns e George Nolfi, foram bastante felizes em optar por iniciar o filme a partir do exato ponto onde o Supremacia Bourne termina, como se um filme estivesse diretamente ligado ao outro e ambos os filmes fossem um só. Aliás, toda a ligação feita entre A Supremacia Bourne e O Ultimato Bourne é muito bem bolada e arquitetada.
Mais do nunca, Jason Bourne está à procura do seu passado. Seu objetivo é descobrir “quem começou tudo” e “dar um fim nisso”. E é nessa procura que o filme é soberbo em criar cenas de ação tensas e, na mesma proporção, empolgantes. Uma característica nos filmes do excelente diretor Paul Greengrass, é a presença das câmeras de mão. Aqui, são várias as cenas tremidas no filme, que dão muita agilidade a ele. E os closes milimétricos são na medida certa, e estão lá pra tornar tudo mais tenso.
Só pra mencionar, mas genericamente, Greengrass faz várias cenas espetaculares neste filme. A da perseguição do jornalista (num metrô, salvo engano), a da perseguição a pé nas ruas de uma cidade marroquina, a cena de perseguição de carros na cidade de Nova York, e o momento final do filme, tudo é memorável. Talvez a que mais tenha me agradado, e com certeza foi a que mais me empolgou no cinema, foi a que se passa em ruas marroquinas. São vários momentos de ação e muita tensão, onde o trabalho de câmera do diretor ao mesmo tempo em que mostra de forma diferenciada as cenas de perseguição, revela uma interessante fotografia de Marrocos.
Quanto às atuações, acho que o elenco só merece elogios. Matt Damon é perfeito para o papel, e ainda também se destaca nas cenas de flashbacks (que aliás, são excelentes tanto quando resgatam cenas dos filmes anteriores, quanto quando mostram cenas do passado de Bourne que ainda não sabíamos). Temos a volta de Julia Stiles, que demora a surgir, mas quando surge é muito competente (e aparenta ter certa “importância” no passado de Bourne), e a volta de Joan Allen, a qual tem sua personagem mais desenvolvida que antes. Já David Strathairn é quem assume o papel de vilão, e o faz, como se esperava, muito bem também. Por fim, duas aparições curtas, mas que também me agradaram. Paddy Considine (de Terra de Sonhos), está interessante na pele do afobado jornalista e Albert Finney é simplesmente perfeito quando aparece.
Ah, e só pra registrar: a película tem quase duas horas de duração, e eu juro que a sensação é de que o filme mal tem uma hora. Mas o que o diferencia mesmo dos demais filmes de ação, é que ele consegue ser sério, maduro, cativante, desenvolve bem a sua complexa história, e ao mesmo tempo ainda é recheadíssimo de cenas de ação.
O Ultimato Bourne veio pra fechar com chave de ouro uma trilogia pra lá de espetacular. Tudo ficou tão bem acabado que, por mais que seja prazerosa a idéia de poder ver Jason Bourne em ação novamente, seria um equivoco uma nova continuação. A melhor coisa a se fazer é sentir orgulho em ter terminado essa franquia no ápice. E louvada seja a “franquia Bourne”.
Nota: 9,0
Escrito por Bruno às 23h13
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SUNSHINE - ALERTA SOLAR
Não é nenhum exagero dizer que “Sunshine - Alerta Solar” é, de longe, o melhor filme de ficção científica do ano. Primeiro porque este ano não tiveram muitas obras significativas de ficção científica, segundo porque este filme efetivamente é uma pequena obra prima feita por ninguém menos que Danny Boyle.
O filme começa sendo narrado por um de seus protagonistas, o físico Robert Capa (Cillian Murphy), explicando que o Sol está morrendo, seus raios solares são cada vez mais escassos e a vida na Terra se vê ameaçada com a morte do Sol. A solução é o projeto Icaro, que consiste em jogar uma bomba do tamanho de Manhattan no Sol, onde a explosão reacenderia o núcleo do Sol, dando-lhe nova vida. A primeira nave Icarus I falhou, e a razão da falha, bem como o destino da tripulação são desconhecidos. A nave Icarus II, da qual Capa é tripulante, é enviada como a última esperança do planeta Terra.
Tendo como ponto de partida oito tripulantes que estão juntos há mais de 16 meses, a natureza do ser humano passa a ser o foco principal de exploração da película. Mesmo em um ambiente pacífico, bem organizado, e com diversos recursos tecnológicos, após um convívio intenso de tanto tempo, o stress é inevitável. Mas aqui, o diferencial é a forma como Boyle trabalha as questões filosóficas que envolvem os tripulantes e sua missão. Os vários embates entre a lógica e a humanidade, a razão contra a emoção, a objetividade contra a curiosidade, enfim, são várias as questões que são postas em discussão de modo soberbo.
Uma crítica comum a este filme é que Danny Boyle pecou ao querer adicionar (mais) tensão ao final do filme. Sem entrar em detalhes, até pra não entregar a ninguém o que acontece, só afirmo que o final não me incomodou em nada. Aliás, fiquei muito surpreso com tudo aquilo, e acho que se justifica não só por querer adicionar ação à película, mas também por adicionar e aprofundar a questão filosófica e social. Em seu terceiro ato o filme deixa claro seu posicionamento e sua crítica contra o fanatismo religioso tão presente em dias atuais, e as maiores atrocidades são cometidas “em nome de Deus”.
Sobre as atuações, realmente todas são merecedoras de aplausos. Boyle consegue grandes atuações desse elenco afiado. Só pra citar algumas, temos Cillian Murphy (muito bem na pele do personagem mais importante da missão), Chris Evans (ótimo em todas as cenas), Cliff Curtis (com talvez o melhor papel do filme) e Hiroyuki Sanada (que tem o personagem mais equilibrado da película). Ainda deve-se salientar o ótimo trabalho da equipe técnica. Com efeitos especiais bastante corretos e uma fotografia perfeita, o visual é um ponto fortíssimo do longa. A trilha sonora também é fantástica, e se mostra totalmente bem escolhida para o filme.
Dos filmes deste ano lançados até agora, sem dúvida “Sunshine - Alerta Solar” está entre os melhores. Do gênero ficção científica, de longe é o melhor do ano. A cada filme Danny Boyle consolida seu enorme talento na direção. Com mais esta pequena obra-prima, ele possui uma filmografia de dar inveja a muitos diretores. Para nós, espectadores, só resta bater palmas.
Nota: 8,5
Escrito por Bruno às 15h07
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DURO DE MATAR 4.0
Continuando a moda de reviver franquias de sucesso, Bruce Willis nos traz seu John McClane de volta em “Duro de Matar 4.0”. Agora, após alguns anos sem matar ninguém, McClane tem que enfrentar um terrorista que conseguiu invadir toda a infra-estrutura computadorizada que controla as comunicações, a energia e os transportes dos Estados Unidos.
Pra quem gosta de um filme puramente de ação, que não liga muito pro conteúdo ou pro realismo, esse filme deve agradar bastante. E eu muitas vezes me incluo nesse grupo. Dependendo do filme, eu vou mesmo esperando somente a boa e velha ação, e deixo de reparar no conteúdo do filme em prol de me divertir. Não vejo nenhum problema nisso. Agora, algo que me incomodou neste novo da franquia é que, diferentemente de filmes como “Rocky Balboa”, onde o Stallone volta às origens, aqui McClane está cada vez mais diferente do que fora no início.
Exageros são comuns em filmes de ação, mas “Duro de Matar 4.0” consegue entrar no patamar de filmes como “Missão Impossível”, “Rambo II” e “007...” (qualquer um do Pierce Brosnan). É bem verdade que no primeiro “Duro de Matar” MacClane consegue pular de um prédio com ajuda apenas de uma mangueira de incêndio, é verdade também que no terceiro ele consegue derrubar um helicóptero com uma metralhadora (o que ainda assim é bem mais crível do que com um carro, convenhamos), mas nada disso chega aos pés da cena deste filme que envolve ele dirigindo um caminhão e um caça (sério, alguém não achou isso bizarramente aloprado?!). Eu até perdôo ele pular de um carro a uma porrada de km por hora, e conseguir andar normalmente pouco tempo depois (tudo em prol da diversão), mas aquele caça foi demais (e McClane sobreviver ao ataque também).
Mas calma, o filme não é ruim, pelo contrário, trata-se de um bom filme de ação (é que eu precisava externar essa minha indignação, mas já me sinto melhor). Sem dúvida nenhuma, um dos pontos fortes do filme é o Bruce Willis. Este é um papel que ele conhece bem, e aqui continua competente como sempre. Aliás, assim como no filme anterior da franquia, quando Willis fez uma parceria com Samuel L. Jackson, ele trabalha lado a lado de um outro ator, agora Justin Long, o qual interpreta um hacker muito nerd e bastante divertido. Willis demonstra ótima química com seu parceiro, dando credibilidade à relação existente entre ambos, o que cativa o espectador.
As cenas de ação típicas da franquia estão lá, e divertem bastante (salvo as megalomaníacas). As ótimas tiradas de John McClane também. Aliás, o humor está até mais forte do que nos anteriores, pois, além das já mencionadas tiradas típicas de McClane, temos um Justin Long com uma atuação realmente engraçada e divertida (aquela cena em que ele suplica para um carro auto-ligar é ótima), e ainda há uma participação cult de Kevin Smith, que tem um personagem nerdíssimo e deveras sarcástico.
Resumindo, “Duro de Matar 4.0” é um bom filme de ação, com um roteiro bem amarrado, que agrada e diverte, porém que tem lá seus pontos fracos (exageros extremos, um vilão bem genérico e pouco convincente, um McClane mais pra Rambo do que pra McClane). Mas tudo bem. Ficando o filme em um nível bom (como ficou), os defeitos se enfraquecem aos nossos olhos. Tudo em prol da diversão.
Nota: 7,0
Escrito por Bruno às 07h18
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PONTE PARA TERABÍTIA
Aqui em casa temos uma mania curiosa. Toda vez que nos reunimos, seja num jantar, seja num churrasco, e especialmente quando temos visita, costumamos sempre, principalmente meus pais, a contar histórias do nosso passado. Frases como “uma vez a gente foi na churrascaria Porcão, e o Bruno, com apenas 8 anos de idade, comeu mais que todo mundo do restaurante”, ou “o Beto quando era menininho comeu tanto sorvete uma vez, mas tanto sorvete que acabou passando um dia inteiro vomitando”, ou ainda “a Paty tinha mania de falar ‘me dá um budão doce’ toda vez que via alguém vendendo algodão doce”.
Bom, uma dessas histórias que meus pais sempre contam, é a de que tinha dias que eu pegava meus bonequinhos e ia pro sofá da sala ou pro tapete, e ficava brincando lá como se eu estivesse em outro mundo. Meus pais contam que falavam comigo e eu não respondia, fazia só uns barulhos de explosões e afins, como se pessoa alguma estivesse falando comigo, como se não houvesse mais ninguém lá, além de mim. E toda vez que eles contam isso, lembro como eu realmente viajava quando brincava com meus bonequinhos, eu criava um mundo meu, só pra mim. E era maravilhoso. Brinquei com meus bonequinhos até a quinta série, quando então resolvi parar porque me achava “grande” demais pra continuar brincando disso. Tenho certeza que aí foi um dos momentos em que minha vida passou a ser menos mágica (é, gradativamente a vida vai ficando menos mágica).
Em “Ponte para Terabítia”, fui completamente transportado para um mundo do qual tenho saudade. Uma verdadeira ode à fantasia (ainda que se explore bem também a parte realista), e particularmente pra mim, à minha infância. O que este filme faz, soberbamente, é introduzir o espectador, gradativamente, a uma história comovente, que mistura drama infantil à fábula e fantasia. Conseguir equilibrar esses dois lados em um filme só não é algo muito comum de se ver. Ainda que seja uma história voltada a um público realmente mais jovem, o filme também trata com carinho e muita competência o seu conteúdo, o que certamente agrada os mais velhos.
Mas hoje eu não quero entrar muito nos méritos que costumo comentar. Aqui, o que vale, pra mim, é a enorme capacidade de encantar, de cativar, de escancaradamente querer externar o amor pela imaginação, de querer mostrar como pode ser fascinante o mundo mágico que uma criança pode criar (seja como forma de refúgio, seja como modo de simples diversão).
Dessa vez eu me senti como a muito não me sentia. Um bom pedaço da minha vida veio à tona, de uma só vez. Revivi deliciosas emoções da minha juventude (o “amor” platônico por uma professora, o primeiro amor infantil, as relações típicas dessa idade entre amigos e entre família), e outros momentos preciosos de quando eu era criança. Às vezes a Disney faz uns filmes realmente mágicos, capazes de reviver e despertar a criança que existe em todos nós. Ser cativado e comovido me fez muito bem. Mas o melhor de tudo foi poder ter sentido por alguns momentos a mágica que um dia imperou a minha infância.
Nota: 8,5
Escrito por Bruno às 18h24
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