Cine No Pretensions


O GÂNGSTER

 

 

 

É difícil explicar porque “O Gângster” é um excelente filme. Quando terminou a sessão, a primeira coisa que me veio na cabeça foi “nossa, filmaço”. Chegando em casa, já pensando em escrever sobre o filme, passei a fazer uma análise de tudo o que eu havia assistido naquela sessão. E inexplicavelmente não me veio nada de magnífico ou excepcional para poder enaltecer o filme da maneira como ele merece ser enaltecido. Talvez seja o conjunto de várias pequenas qualidades que o fazem ser tão bom.

 

Fazendo um parênteses breve por aqui, como falei neste blog há pouco mais de um ano atrás quando escrevi sobre “Os Infiltrados”, a maioria dos grandes diretores costuma fazer pelo menos um filme sobre gângster ao longo de suas carreiras. Ridley Scott confirma isso, fazendo na hora certa “O Gângster”, o que pode desvencilhá-lo um pouco de alguns de seus últimos trabalhos contestados (vide Cruzada, Falcão Negro em perigo e Hannibal) e quem sabe começar a firmar de vez seu nome no rol dos grandes diretores. Eu não o considero em hipótese nenhuma no naipe de diretores consagrados como Scorsese e Coppola, mas que este filme pode ser a retomada de uma caminhada brilhante que o diretor começou no início da sua carreira, e que teve como último bom filme “O Gladiador”, isso pode.

 

Mas retomando, talvez o que tenha me feito gostar tanto do filme seja o modo detalhado como o Ridley Scott mostra, através de suas câmeras, as trajetórias dos protagonistas do filme, Denzel Washington e Russel Crowe. O modo como eles se estabelecem, o Denzel como gângster traficante internacional e o Russel como policial incorruptível e chefe de uma equipe contra o tráfico, é muito bem trabalhado, e ainda que ambos estejam indo para lados extremamente opostos, sabemos que, devido ao que fazem da vida, é inevitável que em algum momento eles se cruzem. Na verdade, (atenção SPOILER) o filme não trabalha, não se aprofunda na relação que se dá entre os protagonistas após se conhecerem frente a frente, por esse encontro se dar justamente bem no final do filme. No entanto, o que poderia ser uma falha incômoda, tendo em vista o que aconteceu com cada um na vida real (a relação deles deve ter sido bem interessante), acaba sendo um detalhe não tão importante. O filme é excelente e muito bem conduzido antes do encontro deles, e é isso que o faz tão bom. Mas evidente que vale a ressalva de que seria mais legal se o filme tivesse uns minutinhos a mais explorando melhor a relação que os dois passaram a ter dali em diante.

 

Por falar em uns minutinhos, é incrível como o filme não aparenta ter mais de 2 horas e meia de duração. Pra quem se conectou à película, tenho certeza que a sensação é de ter assistido no máximo umas 2 horas de filme. Grande parte deste mérito deve ser creditada ao Ridley Scott, por conseguir apresentar de forma tão instigante duas histórias paralelas, ricas na exploração dos protagonistas, que obviamente se cruzarão (talvez a ansiedade por ver esse cruzamento é que cause essa sensação de tempo rápido). No entanto, não fosse o belo roteiro de Steven Zaillian (de “A Lista de Schindler”), que amarra muito bem o caminho percorrido de cada protagonista até o tão esperado encontro, possivelmente o filme não teria todo esse impacto.

 

Sobre as atuações, Denzel Washington no papel de Frank Lucas, um ex-motorista negro que virou chefão de uma rede de tráficos, está muito bem, dando a densidade que seu personagem merece. Todavia, não chego a ver nele, aqui, o brilho de outras interpretações mais gloriosas do passado, mas isso é porque sempre espero muito dele, justamente por achá-lo um fantástico ator. Russel Crowe, no papel do policial incorruptível, também tem boa atuação, dividindo bem a responsabilidade com Denzel Washington de carregar o filme. O elenco coadjuvante é ótimo também, o que aumenta ainda mais a qualidade do filme. Temos um renovado Cuba Gooding Jr., se desvinculando de seus últimos filmes de baixa qualidade, temos a veterana Ruby Dee, cuja atuação lhe valeu uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante, ainda temos Chiwetel Ejifor bem no papel de um dos irmãos de Frank Lucas, e um cada vez mais atuante Josh Brolin, que faz uma espécie de vilão tão detestável que chega a ser cativante.

 

“O Gângster” é um filme que recomendo para todos. Tem uma história baseada em fatos reais, rica em conteúdo, muito bem amarrada, muito bem trabalhada e conduzida, recheada de boas atuações. Um filme que possui um grande impacto visual, e que busca ao máximo o realismo necessário para reproduzir o ambiente da década de 70. Não chega ao status de obra-prima, mas que no mínimo é uma grande obra, e que engrandece e muito o currículo do Ridley Scott, isso é fato. Bom para nós cinéfilos, que talvez estejamos vendo um grande cineasta voltando à boa forma.

 

 

Nota: 8,5

Escrito por Bruno às 23h47
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EU SOU A LENDA

 

 

 

A primeira frase que me vem na cabeça quando penso neste filme após tê-lo assistido é: “O Will Smith já aguenta segurar um filme sozinho”. Este ator há muito vem mostrando seu talento e carisma para poder chegar ao status de ser o cara que pode carregar um filme nas costas tranquilamente. Em “Eu sou a lenda”, ele apenas conversa com manequins e um cachorro (com exceção de uma parte do filme, que não é conveniente comentar aqui), e o filme ainda assim soa interessante e agradável. Realmente isso não é tarefa pra qualquer um.

 

Com uma história apocalipticamente assustadora, “Eu sou a lenda” é um filme que mostra um planeta terra com a vida humana praticamente extinta. Uma pesquisadora desenvolve um vírus que supostamente curaria o câncer, mas obviamente algo dá errado, e o ser humano passa a ser um animal em extinção quando a epidemia se alastra. Dr. Neville (Will Smith) passa a ficar na deserta Nova York (ponto de partida do vírus) a fim de conseguir descobrir uma fórmula para curar os infectados.

 

O filme em si é bem bom. A premissa da história é bastante interessante e bem bolada, e a história consegue ser muito bem conduzida. No entanto, eu, com minha humilde opinião, venho dizer que não me agradou o final do filme. Não pretendo comentar o porquê aqui, para não estragar a diversão de ninguém, mas acho que para aqueles que já viram o filme é um tanto óbvio. Não, eu não sou um daqueles caras chatos que acham que o final do filme tem que ser fenomenal, onde tudo se resolve, ou que haja um desfecho alternativo genial, ou que o final toque profundamente nossa alma. Nada disso. Eu não sou o tipo de pessoa que assiste um filme bonzinho, torcendo para que o final seja tão magnífico quanto foi saber que o Bruce Willis estava o tempo todo morto no final de “O sexto sentido”. Mas definitivamente sou o tipo de pessoa que quando está assistindo um ótimo filme, torce para que o final não estrague tudo aquilo que vinha assistindo. Estou falando isso porque são vários os exemplos de filmes que vinham sendo muito bons e acabam tendo um final, com o intuito de querer ser magnífico e/ou poético, péssimo. “Eu sou a lenda” não chega a levar isso ao extremo, mas me entristeceu muito a forma como tudo terminou.

 

Sobre as atuações, Will Smith mostra mais uma vez que é um bom ator, versátil, extremamente carismático, e fenômeno quando o assunto é bilheteria. Seu nome é naturalmente atrelado a sucesso, e qualquer que seja o filme que ele entre, o resultado é no mínimo satisfatório. Aqui, ele continua cativante e até nas cenas em que vocifera contra um manequim, indagando por que ele está naquele lugar, ele consegue ser bom, ainda que a cena pareça ser sem sentido. Também gostei muito da Alice Braga, ainda que seu tempo no filme não seja muito. Seu inglês me pareceu bom, e ela encarna sua esperançosa personagem bem. A julgar por alguns elogios que vem recebendo, acredito que ela passe a receber boas propostas para fazer filmes hollywoodianos. Vamos torcer.

 

Então, no final das contas “Eu sou a lenda” merece ser assistido por quem ainda não viu. Primeiro porque o filme, no geral, é bom, segundo porque estamos numa época de vacas magras no cinema (janeiro não costuma ser tão bom, aí filmes como esse se sobressaem), terceiro porque tem um Will Smith provando cada vez mais a força que ele exerce sobre o resultado final de um filme. Um ator verdadeiramente capaz de iluminar a escuridão.

 

 

Nota: 7,0


Escrito por Bruno às 21h22
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O SUSPEITO

 

 

 

É, caros amigos. Ano novo, casa nova. Peço desculpas por ter ficado esses dias todos sem escrever no blog, mas, como já falei por aqui antes, eu estava em processo de mudança para uma nova casa, então tudo ficou muito corrido e bagunçado nesses últimos dias, e somente agora a mudança finalmente acabou. Todavia, algumas coisas ainda não se acertaram, como a internet a cabo, que ainda não foi instalada na minha casa. Como já fazem duas semanas que não escrevo, apelei e vim em uma lan house para escrever este texto.

 

“O Suspeito” traz a história de um atentado ocorrido no Egito, que resultou em algumas mortes (incluindo um agente da CIA) e vários feridos. Dentre os suspeitos, o principal é Anwar El-Ibrahimi, um engenheiro químico egípcio, que possui green card, mora nos EUA há 20 anos, tem esposa e filho americanos. Ele estava fazendo uma viagem a negócios na África, e quando voltava para os EUA, foi sumariamente preso, interrogado e enviado de volta para o Egito para ser novamente interrogado. Tudo isso de acordo com uma lei chamada Extreme Redition, a qual autoriza que um suspeito de terrorismo seja retirado do território americano e enviado para uma prisão secreta no exterior (como a de Guantánamo), a fim de ser interrogado e fornecer informações contra o terrorismo. Paralelamente a isso, vemos a luta da esposa de El-Ibrahimi nos bastidores para conseguir saber o que aconteceu com o marido, e vemos também a história da família de um “interrogador” (eufemismo puro) egípcio, onde a filha mais nova pretende fugir de casa para ficar com o namorado, pois fora prometida em casamento para outro homem.

 

Algo que me agradou foi a qualidade do elenco deste filme, que está recheado de grandes nomes. Indo direto aos destaques, gostei da Reese Witherspoon interpretando a Sra. El-Ibrahimi. Cada vez mais respeito essa atriz talentosa, e neste filme chega a me comover a cena em que ela procura a personagem de Meryl Streep. Esta última, por sua vez, é sempre competente, qualquer que seja o seu papel, e aqui não é diferente. Alan Arkin é um senador que aparece pouco na película, mas quando aparece está bem. J.K. Simmons também aparece pouco, mas (principalmente para os fãs da série OZ) é sempre bom vê-lo em cena. Peter Sarsgaard tem um ótimo papel em mãos, e se sai muito bem na pele do assistente do senador vivido por Arkin. Seu diálogo com a personagem de Meryl Streep é impagável. Por fim, temos Jake Gyllenhaal no papel de um agente da CIA, atuante na área burocrática, que acaba tendo que acompanhar todo o caso do atentado, tanto na parte burocrática como na parte dos “interrogatórios”. Seu personagem, atormentado por sua consciência e seu dever profissional, é ótimo, e Gyllenhaal o interpreta realmente muito bem.  

 

Mas o que acho interessante analisar em “O Suspeito”, é como o atentado de onze de setembro conseguiu deturpar as mentes americanas. Ainda que seja somente uma parcela da população, é de arrepiar o que passou a ser aceito por esta parcela quando o assunto é terrorismo. Se o fato de torturar algumas pessoas (culpadas ou não) puder salvar, por exemplo, o centro de Londres de um atentado, então a tortura é completamente válida, e os responsáveis pela mesma poderão descansar sossegadamente suas cabeças no travesseiro quando dormirem. Se houver injustiças? Tudo bem, desde que se evite um único atentado, não há problema. Esse é o argumento que usam. Mas e se a injustiça for com um filho seu, um pai seu, uma esposa ou marido que você tenha? E se for com você?

 

Bom, ainda que o filme em alguns momentos seja um pouco parado, um pouco desnecessariamente longo, ele serve para muita reflexão. Ainda tem ótimas interpretações e um roteiro ousado, que aparentemente pode ser simples, mas se revela inteligente e até curioso, principalmente na constituição do tempo e do espaço. E para encerrar, para aqueles que gostarem deste filme, principalmente no tocante ao tema da tortura como um dos modos de combater o terrorismo, recomendo o filme “Caminho para Guantánamo”, caso ainda não tenham assistido. Nunca é demais refletir sobre o tema.

 

 

Nota: 7,0

Escrito por Bruno às 20h05
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