Cine No Pretensions


ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

 

 

Recentemente recebi um email que seria uma crítica/sugestão. Dizia que meus textos eram grandes, que eu me estendia muito em alguns pontos, entre outras coisas. Bom, toda crítica construtiva é bem vinda e eu aceito numa boa. A partir de agora tentarei escrever textos mais resumidos e enxutos, evitarei divagar e, acima de tudo, tentarei não ser prolixo. Somente em alguns filmes especiais, que eu achar que efetivamente vale a pena alongar um pouco a minha análise, é que escreverei textos maiores. Vamos então ao que interessa.

“Ensaio sobre a cegueira” é uma adaptação do livro homônimo de José Saramago, com Fernando Meirelles assinando sua direção. Um dos pontos positivos da obra é saber explorar a natureza humana em meio ao caos, um pouco parecido com o que fez com maestria “O Nevoeiro”. Outro acerto reside durante o confinamento, é ótima a forma gradativa que Meirelles conseguiu impor o caos aos personagens quando as pessoas estão confinadas. No princípio, quando começaram as primeiras atitudes anárquicas, ninguém deu atenção, alguns até riram, outros ficaram indeferentes, mas todos ficaram inertes. Rousseau já dizia: “maldito daquele que não se insurgiu contra o primeiro tirano que disse: esta terra é minha!”. Guardando as proporções, o mesmo raciocínio se aplica ao filme. Ninguém confrontou o primeiro tirano, no caso o personagem de Gael Garcia Bernal, e logo a tirania estava lá, há pleno vapor.

Outro ponto positivo foi a fotografia branca. Essa idéia de fazer o espectador experimentar a sensação dos personagens atingidos pela cegueira foi mesmo um acerto. Mas também há alguns pontos negativos na película, como um certo desconforto que se tem na transição de alguns momentos chaves do filme. Não tenho certeza se o problema foi no roteiro, ou se na edição que foi dada ao filme após a exibição de Cannes (quando foram feitos alguns cortes por conta da reação do público), mas ficou aquela sensação de irregularidade na narrativa.

Sobre o elenco, Julianne Moore está ótima, como era de se esperar, mas não chega a ser uma daquelas atuações fenomenais que a atriz já nos proporcionou. Já tem gente falando em um Oscar pra ela, me parece exagero. Mark Ruffalo está excelente do meio pro fim do filme. Danny Glover quando pega um bom papel (digo isso porque as vezes ele aceita uns papéis ridículos, como em “Atirador”), é sempre um acerto, mesmo aparecendo pouco. Gael Garcia Bernal está bem, não chega a fazer um vilão memorável, mas sua cena cantando uma música do Steve Wonder é inesquecível. Alice Braga agrada cada vez mais, dá gosto de vê-la nas telonas, e aqui ela mostra competência novamente, conferindo muita humanidade à sua personagem. As chances dela se consagrar em Hollywood aumenta a cada filme, tomara que consiga.

Não posso fazer comparações deste longa com o livro, já que não li o mesmo. Mas verdade seja dita, esse é o tipo de comparação que não se deve fazer. A experiência de ler um livro e de ver um filme, ainda que sobre a mesma história, é bem diferente. Todavia, principalmente para aqueles que gostam de comparações, que leram o livro e têm desconfiança se o longa conseguiu adaptá-lo satisfatoriamente, é bom lembrar que José Saramago se emocionou ao ver o filme, e revelou ter ficado extremamente contente com o resultado da adaptação de seu livro para as telonas. Se o autor aprovou, quem somos nós pra contestar, não é mesmo?


Nota: 7,5


Escrito por Bruno às 14h09
[ ] [ envie esta mensagem ]


O NEVOEIRO

 

 

Após um longo tempo afastado dos cinemas, Frank Darabont retorna nos presenteando com este excelente filme de terror chamado "O Nevoeiro". Mais uma vez trabalhando com um roteiro baseado em um conto de Stephen King, Darabont dá um show de direção, conduzindo muito bem os seus atores, aprofundando bem a relação dos personagens, e conseguindo manter a tensão durante todo o longa.

 

Um dos pontos fortes de "O Nevoeiro" é o seu roteiro. Além da brilhante idéia que dá origem à trama, e além de propiciar a criação de inúmeras cenas tensas com o seu desenrolar, este filme ainda é uma genial análise sobre o ser humano. Aqui, estamos falando de possibilidades de comportamento que a humanidade já provou, ao longo da sua história, que o ser humano pode ter em determinadas situações. A evolução da sub-trama que é desenvolvida em torno da personagem de Marcia Gay Harden deixa isso muito claro. No início dos acontecimentos, quando tudo é estranho e desconhecido, as pessoas tendem a ter atitudes racionais: uma querendo descobrir o que está acontecendo, outras simplesmente resolvem ficar quietas em seu canto, esperando que as coisas se normalizem ou que alguém planeje algo. Neste primeiro momento, a coisa mais sensata para praticamente todos é ignorar a pregação radical da personagem de Gay Harden. Basta o estranho, o desconhecido, começar a tomar proporções catastróficas, que a maioria, antes incrédula e mais racional, passa a procurar um abrigo nas crenças de Gay Harden. O desenrolar de tudo isso é simplesmente brilhante.

 

De fato, o ser humano tem tendência a querer controlar o incontrolável, e a melhor forma de fazer isso é com a fé (por mais radical que ela seja). Um exemplo claro disso é a idéia, por exemplo, contida no livro e no filme "O Segredo". Sabendo dessa necessidade, dessa tendência do homem, ele trabalha a idéia de que pensando em algo, a tendência é que aquilo se concretize. Isso é uma idéia confortável, é uma crença confortável. Afinal, assim acrediando você tem a doce "ilusão" de que provavelmente aquilo que lhe é tão desejado um dia será alcançado, não importa o quão difícil possa ser. Lógico que eventualmente o que você quer será alcançado, mas a questão é que o ser humano gosta de ter (ou pensar que tem) esse "controle" sobre uma possibilidade que está em aberto, pode ocorrer ou não (na maioria das vezes depende de vários fatores que podem fugir do nosso controle). Estou me estendendo neste assunto porque é exatamente o que acontece com vários personagens coadjuvantes no filme. No começo, rejeitaram e alguns até abominaram o fanatismo da personagem de Gay Harden. Após uma catastrófica noite, aliada a algumas coincidências bíblicas observadas pela personagem já mencionada, muita gente passou a aderir a idéia que ela defendia, devido ao conforto que sua crença podia gerar. Ela pregava incansavelmente que todos estavam diante do Juízo Final, que somente as almas boas sobreviveriam, que somente aquele que se convertesse poderia escapar. Quando vamos perceber, seu número de seguidores já é bem expressivo.

 

Um ponto interessante também da película é o pessimismo com que o ser humano é tratado. Se pararmos para refletir um pouco sobre a história do ser humano, temos motivos de sobra pra percebermos que tudo o que se passa no filme poderia efetivamente ocorrer daquela forma, no tocante às reações das pessoas. Claro que há um lado bom no ser humano, que o torna capaz de ser solidário, de trabalhar em conjunto nos momentos mais graves e apavorantes. Mas também há um lado cruel, desprovido do senso de civilidade, revelado normalmente nos momentos mais caóticos, principalmente quando se tem a sensação de impunidade. E é justamente esse lado mais pessimista que o filme resolveu desenvolver mais. Aliás, o final deixa bem claro essa opção. Eu mesmo fiquei de boca aberta com a cena final, foi de uma cruel genialidade inimaginável por mim. Sei que teve gente que não gostou dele, mas temos que levar em conta que, ao menos, ele é coerente com toda a proposta que vinha se desenvolvendo até então. Por mais que seja triste, é genial.

 

Agora, tudo isso que foi dito até aqui diz respeito à profundidade alcançada pelo filme, mas temos que destacar também que "O Nevoeiro" funciona muito bem como obra de terror. Logo no início do longa, rapidamente já estamos envolvidos pelo mistério que cerca aqueles que ficaram dentro do mercado, e quando começam a surgir os monstros a sensação de terror já predominou sobre os espectadores. Por vezes, bate aquela sensação de angústia e tensão, que somente aqueles filmes como "Extermínio", "Viagem Maldita" e "REC" são capazes de proporcionar. Algumas cenas são dotadas de uma impressionante violência, como o surgimento do primeiro monstro com tentáculos, mas as cenas ocorridas na farmácia acho que foram as que mais elevaram os níveis de adrenalina. Enfim, é possível simplesmente resumir afirmando que aflição e tensão estão constantes durante quase toda a película.

 

Com relação aos atores, Darabont ainda conseguiu arrancar belas atuações de seu elenco. Thomas Jane consegue liderar bem o filme, monstrando-se a vontade no papel principal, e ainda mostrando muita competência nos momentos mais dramáticos do longa. Marcia Gay Harden tem a melhor atuação do elenco. Ela se entrega com paixão à sua fervorosa personagem, conseguindo evitar a tentação de ser caricata, imprimindo-lhe o tom ideal, e, com muita eficiência, provocando a ira do espectador por diversos momentos, por conta do seu odiável fanatismo. Ainda temos uma correta Laurie Holden que aparece em várias cenas, mas é subaproveitada em quase todas elas, e um Toby Jones trazendo grande carisma para o seu personagem.

 

Bom, fico feliz de ver a volta de um cineasta tão talentoso como o Frank Darabont. "O Nevoeiro" é um filme de grande profundidade, com tensão do início ao fim, com personagens bem trabalhados e com um final extremamente impactante. E ainda serve pra comprovar que, sem sombra de dúvidas, a parceria Frank Darabont + Stephen King gera obras fantásticas. "O Nevoeiro" é mais uma prova inquestionável disso.

 

 

Nota: 9,0


Escrito por Bruno às 19h53
[ ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]
 
Histórico:

01/10/2009 a 31/10/2009
01/09/2009 a 30/09/2009
01/08/2009 a 31/08/2009
01/07/2009 a 31/07/2009
01/06/2009 a 30/06/2009
01/05/2009 a 31/05/2009
01/04/2009 a 30/04/2009
01/03/2009 a 31/03/2009
01/02/2009 a 28/02/2009
01/01/2009 a 31/01/2009
01/12/2008 a 31/12/2008
01/11/2008 a 30/11/2008
01/10/2008 a 31/10/2008
01/09/2008 a 30/09/2008
01/08/2008 a 31/08/2008
01/07/2008 a 31/07/2008
01/06/2008 a 30/06/2008
01/05/2008 a 31/05/2008
01/04/2008 a 30/04/2008
01/03/2008 a 31/03/2008
01/02/2008 a 29/02/2008
01/01/2008 a 31/01/2008
01/12/2007 a 31/12/2007
01/11/2007 a 30/11/2007
01/10/2007 a 31/10/2007
01/09/2007 a 30/09/2007
01/08/2007 a 31/08/2007
01/07/2007 a 31/07/2007
01/06/2007 a 30/06/2007
01/05/2007 a 31/05/2007
01/04/2007 a 30/04/2007
01/03/2007 a 31/03/2007
01/02/2007 a 28/02/2007
01/01/2007 a 31/01/2007
01/12/2006 a 31/12/2006
01/11/2006 a 30/11/2006
01/10/2006 a 31/10/2006


Filmes Assistidos:

  • Minhas Estimativas

    Perfil:

  • Nome: Bruno
  • Idade: 25 anos
  • Cinéfilo nas horas vagas

    Recomendo:

     Alta Fidelidade
     Baú de Filmes
     Blog Cinefilia
     Cine Carranca
     Cine Resenhas
     Cinéfila por Natureza
     Crônicas Cinéfilas
     Dementia 13
     Diário de um Cinéfilo
     Filmes do Chico
     Nit Zombies
     Sombras Elétricas
     Tudo é Crítica
     Última Sessão