Cine No Pretensions


GRAN TORINO

 

 

 

Desculpem-me pelo desabafo, mas ando cansado de ler alguns textos na internet. Detesto o estilo “oito ou oitenta” de ser. Ultimamente o que tem chovido de textos sobre o cinema autoral e suas maravilhas já está “dando no saco”, com o perdão da expressão. Critica-se muito Hollywood e sua fome por filmes comerciais, e acusa-se o público, de um modo geral, de apenas valorizar estes filmes. Mas seria esse um discurso que reflete a verdade, ou seria um manifesto exagerado de algumas pessoas que anseiam pela adoção de um discurso pró-cinema-independente? O público só valoriza filmes essencialmente hollywoodianos? E, afinal, o que isso tem a ver com “Gran Torino”?

 

Analisando a filmografia de Clint Eastwood como diretor, é fácil concluir que ele possui um estilo não convencional no comando de seus filmes. Até quando faz filmes com uma estrutura mais comercial, Clint consegue torná-los menos convencionais que o esperado. É o que ele fez com “Gran Torino”. Verdade seja dita, estamos diante de um filme que se utiliza de vários clichês (velho militar, mal humorado e amargo, se aproxima de pessoas pelas quais tinha preconceitos; adolescente que se torna uma pessoa melhor com a ajuda de um mentor...), mas que no conjunto da obra conferem ao todo um tom longe do lugar-comum que se espera de filmes formuláicos. Aliás, pelo contrário, até no quesito estético Clint sabe dar um enfoque diferente à sua película, o que por si só, já afasta sua obra do caráter hollywoodiano que poderia assumir. Deste enfoque, temos cenas belas, como quando o personagem de Clint tem um acesso de raiva e pouco depois está sentado, com as duas mãos sangrando, fumando enquanto arquiteta o que deverá fazer.

 

Por falar no personagem principal, o enfoque dado a ele também beira um provável clichê, mas nunca realmente o é, pois Clint consegue construir seu personagem com a maestria devida, tramitando na linha tênue do estereótipo, sem nunca ser apenas comum. De fato, seu personagem, apesar de caricato (num sentido não pejorativo), é extremamente denso. Seu mal humor constante, suas ironias desenvoltas e seu estilo durão refletem um possível passado nebuloso, que lhe conferiu fardos pesados para carregar por toda a vida. É o personagem que mais nos causa reflexões. É o personagem que mais nos cativa e causa simpatia. E é o personagem que mais apresenta fórmulas em sua construção.

 

E eu não poderia deixar de comentar sobre o final do longa. Se durante a película temos a impressão de estarmos diante de alguns conceitos comuns, o desfecho nos garante que estamos equivocados. É o tipo de “reviravolta” inteligente. Uma solução inesperada, feita com elegância e muito feeling, arredondando as arestas do filme, permitindo um final paradoxal (triste, mas feliz), que agrada muito.

 

Mas, retornando às questões inicialmente levantadas, “Gran Torino” agrada justamente por não ser “oito nem oitenta”. Pegou-se algo convencional, mesclou-se com alguns conceitos não convencionais, e esculpiu-se uma obra equilibrada. Dessa forma, não dá pra afirmar que “Gran Torino” é um típico filme hollywoodiano, não é mesmo? E, ainda assim, vem tendo amplo reconhecimento do público, basta ver sua atual nota no site imdb. Aliás, recentemente, inúmeros longas bem mais alternativos vêm sendo recebidos de braços abertos pelo público. O que quero falar com tudo isso, ainda que aqui não seja o melhor lugar para dizê-lo, é que não acho que o público médio só valoriza filmes comerciais, tampouco creio que todo filme não-convencional ou autoral deva ser valorizado. O que me parece ser verdade é que há público suficiente para qualquer tipo de filme. Não tem porque ficar criticando o público e fazendo discursos inflamados em defesa do cinema independente. Isso cansa.

 

 

Nota: 7,5


Escrito por Bruno às 13h06
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PARANOID PARK

 

 

 

Não tem jeito, Gus Van Sant mudou completamente depois de “Gerry”. De cineasta que fazia obras hollywoodianas, fase que nos presenteou com “Gênio Indomável”, passou para cineasta autoral, com filmes cada vez mais alternativos e peculiares. Deste momento recente de sua carreira, saiu o excepcional “Elefante”, possivelmente sua melhor obra. “Paranoid Park” é mais um filme dessa nova safra.

 

A despreocupação que Gus Van Sant desenvolveu em fazer uma película que agrade um público mais abrangente, está lhe permitindo que mergulhe a fundo numa filmografia bastante autoral. “Paranoid Park” até sofre um pouco com isso, pois em alguns momentos aparenta ser mais uma continuação dessa nova fase do referido cineasta, do que uma tentativa de ser uma grande obra. Talvez esse seja o único defeito do filme inteiro, mas que incomoda, pois é perceptível do início ao fim.

 

Por outro lado, “Paranoid Park” tem outras tantas qualidades para compensar. A trama, em si, é ótima, pois Gus Van Sant, trabalhando novamente com o universo adolescente, não se preocupou em passar lições de moral, nem a refletir visões estereotipadas de adolescentes. Temos um protagonista (atenção, possível spoiler) que tem que lidar com um assassinato acidental, que de uma certa forma o atormenta. Sobre este aspecto, a narrativa não linear se revela extremamente útil e funcional para a trama. E que ninguém espere reflexões e diálogos didáticos, o que não condiz com a proposta do longa.

 

Além disso, alguns plano-sequências são memoráveis. A fotografia também é um acerto. As cenas de skates, filmadas na maior parte em câmera lenta, se adequam bem à proposta, já que o skate parece ser o que mais interessa ao protagonista. Mas é inegável que tais cenas dão um tom intencional de discurso artístico à película. Por fim, temos uma trilha sonora eclética e um tanto quanto complexa, que é simplesmente formidável.

 

Em verdade, “Paranoid Park” é um belo filme, confirmando o atual estilo, cada vez mais autoral, de Gus Van Sant, que como diretor pouco procura interferir em suas histórias. Porém, aparenta também ser apenas mais uma obra de sua nova filmografia, como se o objetivo fosse apenas reafirmar a sua atual fase alternativa. A impressão final é que, com um pouco mais de ambição, “Paranoid Park” poderia ter alcançado vôos maiores, sobretudo quando pensamos no desfecho da trama. Talvez “Milk”, último filme do referido diretor, que conferiu a Sean Penn o Oscar 2009 de melhor ator, tenha esse tipo de ambição. É o próximo da lista a ser conferido.

 

 

Nota: 7,5


Escrito por Bruno às 11h02
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ÚLTIMOS FILMES ASSISTIDOS

 

 

Pela primeira vez, desde que criei este blog, não escrevi uma prévia do Oscar antes da cerimônia. E é a primeira vez, também, nos últimos cinco anos, que não assisti os cinco filmes indicados à categoria de melhor filme. Reflexo purinho dos meus estudos, e das restrições que eles me impõem.

 

Mas pra tentar compensar, resolvi fazer um post único, com textos um pouco mais curtos, sobre os últimos filmes que assisti. São eles:

 

 Frost/Nixon: muito interessante a nova incursão de Ron Howard, com excelentes interpretações de Frank Langella e Michael Sheen. A grande qualidade do longa é refletir com muito realismo e detalhe um dos debates mais famosos da história da televisão, ocorrido em 1977, entre o jornalista e apresentador David Frost e o ex-presidente norte-americano Richard Nixon. O filme retrata bem os bastidores dessa entrevista, mas sua melhor qualidade é conseguir se sustentar, do meio pro fim, apenas nos diálogos de seus protagonistas. O único problema, aqui, é a falta daquele “algo mais” que o filme ora aponta querer atingir, mas nunca consegue. Nota: 7,5

 

 Quem quer ser um milionário?: longe, mas muito longe de ser uma obra-prima, como andou se falando por aí, e longe de ser um filme extremamente inovador, ou um marco no cinema, o grande ganhador do Oscar (oito estatuetas) foi o filme certo, no momento certo. É um filme que trabalha uma fábula urbana de modo muito original. Em tempos em que o cinema aponta para um lado mais pessimista, e que o mundo vive projeções mais pessimistas ainda, sobretudo em razão da crise atual, um filme que fomenta a esperança nos espectadores é muito bem vindo, e a Academia soube aproveitar isso. Além disso, o longa possui grandes virtudes, como sua eficiente montagem (trabalha com maestria os flashbacks), a tensão que consegue criar nas principais cenas, além de trabalhar muito bem uma genuína história de amor. Danny Boyle, diretor que sempre me agradou, teve seu talento reconhecido, através de todas as premiações recebidas, nesta que não é a sua melhor obra. Confirmou, ainda, que é mesmo um dos diretores mais versáteis da atualidade. Nota: 7,5 

 Operação Valquíria: a grande virtude do novo longa de Brian Singer, estrelado por Tom Cruise, é saber criar suspense e tensão em cima de uma história que todos nós sabemos como terminou. Claro que muitos (e eu me incluo nesse grupo) não sabiam de alguns detalhes contados no filme, mas o grosso da história (Hitler não foi assassinado, e aqui creio não estar revelando nenhum segredo) todos conhecem. O elenco é outro ponto forte: somente para citar alguns, Tom Cruise está excelente, Bill Nighy (irregular ultimamente) também, assim como Tom Wilkinson, este sempre no ponto. Apesar de não ser formidável em momento algum, “Operação Valquíria” funciona bem em sua proposta, sendo difícil imaginar alguém saindo insatisfeito depois de assisti-lo. Nota: 7,0


Escrito por Bruno às 01h20
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