Cine No Pretensions


ANJOS E DEMÔNIOS

 

 

 

 “Anjos e Demônios”, nova adaptação de Ron Howard para as telonas do livro homônimo do escritor Dan Brown, é um entretenimento esperto e eficiente, que apresenta, porém, alguns defeitos que o enfraquece, sobretudo quando comparado à adaptação anterior “O Código da Vinci”.

 

Não que “O Código da Vinci” seja um longa repleto apenas de qualidades, mas foi um longa que conseguiu criar uma trama de proporções gigantescas, em meio a investigações, grandes descobertas, e muita controvérsia religiosa, um dos grandes motivos de seu sucesso. Se fez jus ao livro que lhe deu origem é outra conversa, que não ocorrerá aqui, pois como sempre falo de adaptações, pra mim é incomparável um livro com um filme. São mundos distintos, um com um vasto leque de tempo e espaço para apresentar detalhes, outro com um curto tempo.

 

A questão é que “Anjos e Demônios” já não apresenta uma trama tão fascinante assim, com proporções tão magníficas. Verdade seja dita, a trama cativa sim, mas não empolga tanto quanto poderia. E o pior, o filme, como quase toda adaptação, sofre do problema de curto tempo para contar sua história. Temos muitos detalhes num curto período de tempo. Basta uma piscada e uma distraída, e o espectador já perde detalhes importantes. Essa característica, na verdade, funciona como uma faca de dois gumes. Se por um lado há muita informação, sendo difícil de absorver tudo aquilo em tão pouco tempo, gerando pouca interação e conexão entre o público e a película, por outro essa mesma gama de informações impõe bastante ritmo, não deixando o espectador descansar e desgrudar os olhos da telona, o que cria uma sensação boa, pois duas horas e vinte minutos acabam parecendo menos de uma hora e meia no final da sessão.

 

Contudo, o longa ainda apresenta outros problemas. Alguns personagens são subaproveitados e algumas atuações são completamente esquecíveis. A atriz Ayelet Zurer não parece muito à vontade com sua personagem. Tom Hanks é sempre um atrativo, mas pouco explora todo o seu talento. Ewan McGregor, sempre simpático e cativante, dessa vez não tem uma atuação de destaque, porém também não chega a comprometer.

 

Mas, no final das contas, o conjunto da obra até que agrada. Mesmo com seus defeitos, “Anjos e Demônios” entretem e até contagia em alguns momentos. Em meio a uma trama ultra-acelerada, ainda temos curiosidades históricas e culturais que dão um charme a mais ao filme, o qual não aparenta ter sequer uma hora e meia das duas horas e vinte minutos que realmente possui. Se o que se procura é um mero entretenimento, então “Anjos e Demônios” pode até ser uma boa escolha.


Nota: 6,5


Escrito por Bruno às 00h41
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VICKY CRISTINA BARCELONA

 

 

 

Woody Allen é um cineasta com um estilo inconfundível. Seja fazendo filmes leves como “Scoop”, ou filmes mais pesados como “Match Point”, seu humor inteligente e sua visão amarga e pessimista da vida, de alguma forma, sempre estão presentes. Até nos seus filmes mais escrachados, como “Bananas”, sua inteligência humorística diferente e seu pessimismo podem ser detectados. “Vicky Cristina Barcelona” é mais um longa do mestre Woody que possui tais atributos, o que, todavia, não retira sua originalidade.

 

As melhores obras do vasto currículo de Woody Allen são as relacionadas a relacionamentos amorosos. Meus dois filmes preferidos dele são “Annie Hall” e “Manhattan”. Sua visão dolorosa sobre os relacionamentos estão à flor da pele em “Vicky Cristina Barcelona”, quase na mesma intensidade que nos filmes citados anteriormente. Nenhum relacionamento é simples, nenhum casal tem perspectivas reais de plena felicidade e bom convívio.

 

Em “Vicky Cristina Barcelona” todas as relações são complicadas. Vicky imagina que tem um futuro certo e sólido com seu noivo, até que uma noite muda a estabilidade de seu relacionamento. Cristina, quando pensa estar vivendo uma paixão mágica, descobre estar numa relação bem mais complexa do que esperava. Juan Antonio não consegue entrar numa nova relação sem ser afetado por sua ex-esposa Maria Elena. Judy sofre com a “morte” da paixão do seu casamento.

 

Aliás, um dos grandes méritos de Woody é sua capacidade em saber aproveitar os personagens secundários de seus filmes. Enquanto muitas outras obras apresentam alguns personagens inicialmente para logo depois descartá-los no restante, Woody se esforça ao máximo para aproveitar tudo o que tem em mãos. O maior exemplo é Judy, personagem de Patricia Clarkson, que surge no começo do filme como se fosse uma personagem secundária “esquecível”, para depois reaparecer de maneira marcante.

 

Outro ponto forte do filme é o seu elenco. Scarlett Johansson, a nova musa de Woody Allen, está encantadora como sempre, mas sua atuação não chama tanto a atenção como a de seus companheiros. Javier Bardem prova mais uma vez o grande ator que é, com uma atuação impecável. Penélope Cruz dá show com a melhor atuação do longa, conferindo à sua Maria Elena uma intensidade formidável. Ela rouba a cena quando aparece. Rebecca Hall, um doce, possui talvez a personagem mais intrigante, mais sofrível e que mais oferece nuances, e não faz feio, nos oferecendo uma atuação à altura de sua personagem. Pra mim, foi uma agradável surpresa. Ainda temos uma competente Patricia Clarkson completando o elenco.

 

Agora, outro aspecto a se comentar, é que todo o pessimismo e toda a complexidade que Woody confere aos relacionamentos de seus personagens são adocicados por seu humor debochado. Seus diálogos inteligentes e as situações cômicas e irônicas criadas na película, registradas por uma câmera simples e leve, sem nenhuma pirotecnia, garantem um clima cômico em quase toda a obra, equilibrando bem os romances, os dramas e o humor.

 

Enfim, parece que os novos ares estão fazendo bem a Woody Allen. Depois que saiu de Nova York, sua filmografia ganhou novo fôlego. “Vicky Cristina Barcelona” é mais uma das suas obras características, somando mais um bom filme em sua consistente carreira.


Nota: 7,5


Escrito por Bruno às 01h02
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X-MEN ORIGENS: WOLVERINE

 

 

 

Crucifiquem-me se quiserem, mas venho escrever mais coisas boas sobre “X-Men Origens: Wolverine” do que ruins. Talvez tenha sido a minha ida despretensiosa ao cinema, sem esperar por um grande filme, que tenha ajudado para que eu apreciasse tanto o longa, já que havia lido vários textos na internet que me deram uma perspectiva um tanto quanto pessimista. Mas a verdade é que este filme surpreende.

 

É público e notório que uma das histórias oriundas dos quadrinhos mais complicadas de se contar é a do Wolverine. De fato, sua história é tão complicada e complexa, e já sofreu tantas reviravoltas, que até os maiores fãs do personagem costumam se confundir. Para se ter uma idéia, Wolverine surgiu pela primeira vez numa revista do Incrível Hulk, pra somente depois ser incorporado nos gibis dos X-Mens. Seu passado, no próprio gibi, é bastante nebuloso. Aliás, mesmo sendo construído após décadas de inúmeras tiragens de revistinhas, ainda ficam muitas dúvidas sobre seu passado. Não se sabe tudo sobre sua juventude, e muito se discute acerca de alguns “fatos” sobre seu passado, pois nosso herói foi vítima de implantes de memória pelos militares, e muitos acontecimentos que ele se lembra não se sabe se são provenientes de um passado real e vivido, ou de um passado implantado e imaginário.

 

Desta forma, não dava para esperar uma rígida fidelidade histórica, pois certamente não haveria tempo hábil para contá-la. O que acontece é uma necessária manipulação de personagens, com mudanças de funções de alguns, deslocamento temporal de outros, biografia de alguns alterada, dentre outras coisas. Não que a franquia X-Men não tivesse feito um pouco isso antes, como no terceiro da franquia, mas certamente nada se compara à mutação histórica e funcional feita aqui. Há, ainda, um imenso sub-aproveitamento de algumas fases da vida de Logan, como no período em que fugiu do laboratório, após ter o adamantium inserido em seu esqueleto. Nos gibis, ele viveu durante muito tempo como um animal nas florestas canadenses, sem memória, agressivo e agindo praticamente só por instinto, até ser acolhido pelo casal Hudson, que o ajuda a reaprender a ser sociável. No filme, isso é completamente ignorado e da fuga do laboratório até o encontro com o casal não demora poucos minutos, ainda que isso seja eficiente para amarrar melhor o roteiro. Mas tudo isso, todas essas alterações, como já foi dito, é compreensível e justificável.

 

É inegável, também, que, apesar de tantas alterações, a história de Logan conseguiu ser transportada para a telona com alguma lógica e coerência. Claro que um personagem como ele, sombrio e denso, merecia uma visão mais forte e profunda (algo como o feito em “Dark Knight”), com detalhes mais ricos, e com menos cenas de ação. Mas venhamos e convenhamos, pra retratar satisfatoriamente o personagem seria necessário no mínimo uma série com umas três temporadas. Não me parece que foi o objetivo do longa. Aqui, o que se almejou foi montar um surgimento para o Wolverine, explorar alguns pontos de sua origem, abusar de cenas de combates, e faturar muito, mas muito dinheiro nas bilheterias.

 

Aliás, é por isso que não critico a escolha do diretor Gavin Hood para o longa. É verdade que o enfoque nas cenas de ação é demasiado, e se trocassem algumas cenas de adrenalina por outras com carga mais dramática, o longa poderia ser muito melhor. Mas também é verdade que Gavin Hood conseguiu unir todas as pontas do roteiro bem amarrado que tinha em mãos, aliando o desenvolvimento da história do mutante com muitas cenas de ação, algumas com bom uso da criatividade, como no último combate entre Wolverine, Dente-de-Sabre e Deadpool. Se a proposta era mesmo essa, ele conseguiu fazer o “feijão com arroz” direitinho.

 

Apesar de pouco aproveitar vários personagens, como o Gambit (finalmente ele apareceu!), vivido por Taylor Kitsch, há espaço para atuações a serem destacadas. Liev Schreiber faz de seu Dente-de-Sabre, o arqui-rival, de Wolverine, um personagem forte e complexo, sendo um acerto inquestionável. Danny Houston faz um excelente Coronel William Stryker, que tanto é importante nos gibis dos X-Mens. Ryan Reynolds, no pouco que aparece, agrada com seu Wade (e posteriormente Deadpool). Dominic Monoghan também não tem muito tempo em cena, mas é cativante quando aparece. Por fim, temos um Hugh Jackman muito a vontade em seu papel, conferindo o tom certo ao seu Wolverine, como aliás já havia feitos nos filmes anteriores.

 

Por último, vale comentar também sobre a cópia que vazou do longa na internet, o que certamente deve ter prejudicado sua bilheteria nos cinemas. Tenho que ressaltar que a cópia que vazou do filme é um “workprint”, que é, a grosso modo, como se fosse uma versão sem ter sido completamente editada, sem os efeitos especiais inseridos. Faço questão de enfatizar isso porque vi muita gente criticando “X-Men Origens: Wolverine” principalmente por conta dos efeitos especiais, mas sem ter a consciência de que estava vendo uma versão “workprint” do longa. Eu, particularmente, gostei da grande maioria dos efeitos especiais e recomendo que quem assistiu essa versão da internet vá ao cinema conferir a versão final. Vale a pena.


Nota: 7,5


Escrito por Bruno às 23h50
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